O crescimento acelerado de microempreendedores e pequenos empresários no Brasil não representa apenas um movimento econômico, sinaliza uma mudança estrutural nas relações de trabalho.
Com mais pessoas empreendendo, novos modelos de contratação surgem, a tecnologia avança rapidamente e as empresas passam a lidar com desafios que vão muito além da gestão tradicional de equipes.
Foi nesse contexto que nossa sócia Paula Collesi recebeu Marco Vinholi, administrador e diretor técnico do SEBRAE, no novo episódio do Trabalho em Foco. A conversa percorreu os principais temas que devem impactar o ambiente empresarial em 2026, e tratou dessas tendências, embora distintas, estão conectadas por um mesmo eixo: transformação.
A digitalização ampliou o acesso à informação, reduziu custos e democratizou ferramentas antes restritas a grandes empresas, mas, em contrapartida, trouxe riscos que muitos pequenos e médios empreendedores ainda não dimensionaram.
A LGPD ainda representa um campo de amadurecimento para parte significativa das empresas. Situações rotineiras, como o envio de atestados médicos por WhatsApp, o uso de equipamentos pessoais no home office ou o compartilhamento de dispositivos com familiares, envolvem dados sensíveis e podem gerar passivos trabalhistas e reputacionais.
Paula destaca que o desafio não está apenas na norma, mas na prática: “A empresa precisa entender como essas informações estão sendo tratadas internamente e quais riscos o uso inadequado pode gerar.”
Além disso, há um ponto relevante sob a ótica processual: quando comunicações são realizadas por meios pessoais e o vínculo se encerra, a empresa pode perder acesso a provas importantes em eventual litígio.
Tecnologia, governança e cultura organizacional passam, portanto, a caminhar juntas.
A consolidação do modelo híbrido é uma realidade em muitas organizações, mas ainda gera desafios jurídicos e operacionais.
Embora seja difícil retroceder ao modelo exclusivamente presencial, o trabalho remoto trouxe novas zonas de risco: mensagens fora do horário, ausência de fronteiras claras de jornada, uso compartilhado de dispositivos e fragilidades na segurança da informação.
Cada empresa possui uma dinâmica própria, mas o ponto comum é a necessidade de estabelecer políticas transparentes e limites bem definidos.
Flexibilidade não significa ausência de regra, exige, na verdade, maior maturidade organizacional.
A Inteligência Artificial já está presente nos processos de recrutamento, no monitoramento de desempenho e na gestão estratégica de pessoas.
O desafio, segundo Marco Vinholi, é garantir que essa tecnologia seja compreendida e acessível: “É um mundo em transformação e a chave é a qualificação.”
Empresas que utilizam a IA de forma estratégica conseguem ganhar eficiência e vantagem competitiva. No entanto, a democratização da ferramenta exige treinamento acessível, conhecimento técnico e compreensão dos impactos éticos e trabalhistas envolvidos.
Paula amplia a reflexão ao apontar que a grande questão para o Direito do Trabalho está na qualificação profissional. Trabalhadores com menor preparo tendem a ocupar funções cada vez mais básicas, o que pode aprofundar desigualdades sociais.
Nesse cenário, empresas e Estado precisam atuar de forma complementar para fomentar capacitação contínua e inclusão tecnológica.
A discussão sobre a escala 6×1 tem ganhado espaço no debate público e empresarial, no entanto, o tema não pode ser analisado apenas sob a ótica da jornada de trabalho, envolve produtividade, custo operacional, competitividade e sustentabilidade econômica.
Marco alerta que decisões estruturais dessa natureza não podem ser tratadas de forma uniforme: “Não seria bom para o país que essa decisão fosse imposta de forma imediata. Cada empresa e setor têm sua realidade.”
Setores com margens reduzidas ou alta dependência operacional podem enfrentar impactos significativos. Em muitos casos, a empresa até absorve parte do custo inicial, mas ele inevitavelmente repercute no preço final ao consumidor.
Para o ambiente empresarial, a grande questão é previsibilidade. Mudanças abruptas e descoladas da realidade setorial podem gerar retração, fechamento de postos de trabalho ou até encerramento de atividades.
Mais do que um debate ideológico, trata-se de um tema econômico que exige diálogo técnico e análise concreta de impacto.
O Direito do Trabalho, nesse cenário, precisa equilibrar proteção social e viabilidade empresarial, dois pilares que não podem ser dissociados.
A saúde mental tornou-se um dos principais fatores de afastamento no país, especialmente após a pandemia de COVID-19.
Embora normas regulamentadoras não diferenciem empresas por porte, muitas pequenas e médias organizações ainda não incorporaram a gestão de riscos psicossociais à sua estratégia interna.
Vinholi observa que, em meio à Reforma Tributária e às exigências fiscais, temas emocionais acabam ficando em segundo plano. No entanto, um dos principais fatores de estresse no ambiente corporativo é o endividamento, questão que impacta diretamente produtividade, clima organizacional e desempenho.
Os dados sobre afastamentos por transtornos mentais são alarmantes e exigem atenção estratégica, pois risco psicossocial não é apenas humano é também econômico.
A entrada da geração Z no mercado representa uma mudança de mentalidade.
Para esses jovens, trabalho não é apenas estabilidade financeira, mas propósito, alinhamento de valores e qualidade de vida. A escolha por uma empresa pode estar relacionada à sua posição em temas como sustentabilidade, impacto social e cultura organizacional.
Esse comportamento ajuda a explicar o crescimento do empreendedorismo e a redução do interesse pelo modelo tradicional celetista, já que há uma busca clara por autonomia e flexibilidade.
Contudo, como destacou Marco, o ambiente digital também influencia expectativas muitas vezes distantes da realidade prática. Narrativas de sucesso acelerado e independência financeira podem levar a decisões pouco estruturadas.
Esse perfil mais autônomo se conecta diretamente ao crescimento da pejotização e de modelos contratuais flexíveis.
Para as empresas, o desafio é duplo: adaptar modelos de gestão para engajar essa geração e, ao mesmo tempo, garantir segurança jurídica nas relações estabelecidas.
A transformação cultural é inevitável e as organizações que compreenderem essa mudança estarão mais preparadas para atrair e reter talentos.
Como reflexo desse novo cenário, surge a pejotização e, com isso, Paula provoca a reflexão: “Se a pessoa foi contratada em determinado modelo e tinha plena ciência das condições, como reconfigurar essa relação anos depois?”
Ao mesmo tempo, o fenômeno exige cautela, a ausência de regulamentação clara pode gerar insegurança jurídica e desproteção social.
Marco destaca que o país vive um momento de transição, especialmente com a rReforma Tributária em vigência, o que amplia dúvidas e impactos para empresários.
Outro ponto central é a responsabilidade previdenciária do profissional que opta por atuar como pessoa jurídica:. sem contribuições adequadas (seja como MEI, via DAS ou pró-labore) situações como doença, invalidez ou licença-maternidade podem gerar prejuízos significativos.
Um contrato de prestação de serviços bem estruturado funciona como instrumento de previsibilidade e proteção para ambas as partes e a autonomia exige responsabilidade.
Embora os temas abordados no episódio pareçam diversos, LGPD, Inteligência Artificial, trabalho híbrido, escala 6×1, saúde mental, geração Z e pejotização, todos convergem para uma mesma realidade: o modelo tradicional de relações de trabalho está sendo tensionado por transformações tecnológicas, econômicas e culturais.
Para o Ovidio Collesi Advogados, esse cenário reforça a importância da atuação consultiva e preventiva.
Antecipar riscos, estruturar contratos adequados, revisar políticas internas e orientar empresários sobre impactos regulatórios é o que permite atravessar esse período de transição com segurança.
2026 representa a consolidação de um novo paradigma nas relações de trabalho.
Confira ao episódio completo no YouTube e aprofunde-se nessa discussão:
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